Os cajus de Lícia Acioly

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Em Sergipe, o caju é quase sagrado: ele carrega história e identidade. Nas mãos de Lícia Acioly, ganhou ainda outra dimensão: virou cor, textura, composição e arte. Em suas telas, o fruto aparece repetidamente, mas nunca da mesma maneira. Cada caju parece contar uma história própria e, aos poucos, também passou a contar a história da própria artista.

A relação começou quase por acaso. Há cerca de três anos, Lícia, que é arquiteta, recebeu do artista sergipano Fábio Sampaio o convite para participar da exposição “Caju Cidade”. Aceitou o desafio e pintou seu primeiro caju.

Não sabia, naquele momento, que aquela seria a primeira de muitas telas. A obra foi adquirida por uma arquiteta, que a levou para São Paulo, onde foi exposta. A experiência trouxe visibilidade ao trabalho de Lícia e abriu caminho para novas encomendas. O que começou como uma participação em uma exposição acabou se transformando em uma presença recorrente em sua produção.

“O caju me traz um sentimento de felicidade e realização, além da minha origem”, explica.

Em suas obras, o  Aju nunca é o mesmo: muda de posição, de iluminação, de estágio e de contexto. Às vezes aparece sozinho; em outras, divide a cena com diferentes elementos. As cores e as composições também se transformam.

É como se a artista partisse de uma mesma palavra para escrever histórias diferentes.

Para ela, há uma razão para isso: assim como cada pessoa, cada caju é único.

O processo de criação também acompanha essa liberdade. Algumas obras começam de maneira intuitiva; outras nascem de pesquisas, observações e referências. O resultado são telas que têm o fruto como ponto de partida, mas não necessariamente como ponto final.

Porque, para Lícia, pintar o caju é também falar sobre natureza e pertencimento. “A natureza é nossa casa, nossas origens devem ser sempre lembradas”, afirma.

Talvez não seja coincidência que o fruto tenha entrado em sua vida justamente quando ela também estava descobrindo um novo caminho.

Antes da arte, houve a arquitetura. Foram 17 anos entre projetos, construção civil e experiências com restauro, incluindo trabalhos relacionados ao Iphan. A pintura, entretanto, nunca esteve completamente ausente.

Até que veio uma pausa. Há cerca de três anos, Lícia passou por um burnout e decidiu se afastar de atividades que estavam lhe fazendo mal. Nesse intervalo, voltou a olhar para coisas que lhe davam prazer. Entre elas, a pintura mural.

O que inicialmente era uma forma de ocupar o tempo começou a ocupar um espaço maior em sua vida. “A arte veio aos poucos nesse processo e, quando eu percebi, já estava comercializando minhas artes”, conta.

Dois anos depois de assumir profissionalmente a carreira artística, Lícia continua ligada à arquitetura, mas encontrou na pintura uma nova maneira de se expressar.

E foi justamente nesse período de transformação que o caju apareceu. Existe ainda uma curiosa metáfora na relação de Lícia com o fruto.

Nunca é tarde para nada”, diz.

A frase resume também a maneira como Lícia enxerga sua própria mudança. A formação em arquitetura não foi deixada para trás. Pelo contrário, tornou-se parte da artista que ela é hoje. Mas aquilo que estava guardado encontrou finalmente uma forma de aparecer.

A experiência como arquiteta também influencia a maneira como Lícia pensa sua produção. Ela conhece os espaços, entende proporções, dialoga com arquitetos, designers e engenheiros e consegue perceber como uma obra pode transformar a atmosfera de um ambiente.

Mas a pintura trouxe algo que os projetos arquitetônicos não ofereciam da mesma maneira: a possibilidade de traduzir sentimentos, memórias e referências pessoais em imagens.

Seu trabalho tem forte diálogo com o impressionismo e com a natureza. E, embora os cajus tenham se tornado uma marca, eles convivem com outros temas, como passagens bíblicas e árvores da vida.

Agora, a artista começa a explorar também uma coleção de obras abstratas. A ideia é experimentar sem perder a identidade construída ao longo desse caminho.

Os cajus são para Lícia um encontro entre território e memória. Entre arquitetura e pintura. Entre aquilo que ela foi e aquilo que descobriu que também poderia ser.

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