
O interesse dos brasileiros pela casa própria continua em alta. A intenção de compra de imóveis atingiu 52%, o maior índice da série histórica da Brain Consultoria, superando em nove pontos percentuais a média registrada desde 2019. O dado mostra que, mesmo diante de juros elevados, o desejo de adquirir um imóvel permanece aquecido.
Na prática, porém, esse movimento tem impulsionado principalmente o mercado de imóveis usados. Com o crédito imobiliário mais caro e a necessidade de entradas maiores, muitas famílias de renda média têm encontrado no mercado secundário uma alternativa mais viável para realizar a compra.
Dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) mostram que, no primeiro semestre de 2026, cerca de 70% dos 160 mil financiamentos concedidos pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) para pessoas físicas foram destinados à aquisição de imóveis usados.
A tendência também aparece nas negociações realizadas em São Paulo, onde as vendas de imóveis usados cresceram 31% no acumulado até maio, segundo o Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (Creci-SP). O maior volume de negócios foi registrado em março, com destaque para imóveis na faixa entre R$ 500 mil e R$ 800 mil.
Para especialistas, o cenário reflete um descompasso entre a oferta de novos empreendimentos e o perfil da demanda. O mercado tem concentrado lançamentos de alto padrão, impulsionados pelo aumento do custo dos terrenos, dos materiais de construção e do crédito para produção. Já os empreendimentos mais acessíveis, em sua maioria, oferecem apartamentos compactos, como estúdios e unidades de menor metragem.
Com isso, consumidores que procuram imóveis de dois dormitórios, ambientes mais amplos e melhor relação entre preço e espaço acabam migrando para o mercado de usados. Em muitos casos, essas unidades oferecem metragens maiores por valores semelhantes aos de imóveis novos.
Outro fator que pesa na decisão é o prazo de entrega dos empreendimentos lançados na planta. Além do financiamento, o comprador frequentemente precisa arcar simultaneamente com despesas de aluguel até receber as chaves, o que torna a aquisição de um imóvel pronto financeiramente mais vantajosa.
A criação da Faixa 4 do programa Minha Casa, Minha Vida, voltada para famílias com renda bruta mensal de até R$ 13 mil e imóveis de até R$ 600 mil, é vista pelo setor como uma medida capaz de ampliar o acesso ao crédito. No entanto, seus efeitos sobre a oferta de novos imóveis devem ocorrer apenas no médio prazo, já que um empreendimento imobiliário pode levar entre cinco e sete anos desde o planejamento até a entrega.
Enquanto isso, o mercado continua convivendo com desafios no financiamento da produção. A redução dos recursos da caderneta de poupança e o aumento da utilização de instrumentos como as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) tendem a elevar o custo de captação das instituições financeiras, mantendo a pressão sobre os preços dos imóveis e reforçando o protagonismo do mercado de usados no atual cenário imobiliário.








