Durante muito tempo, decorar um ambiente significava escolher móveis bonitos, cores harmoniosas e objetos que refletissem o estilo dos moradores. Hoje, porém, a decoração ganhou um novo aliado: a ciência. Cada vez mais, arquitetos e designers de interiores têm recorrido à neurociência para criar espaços capazes de promover bem-estar, conforto emocional e qualidade de vida.
Segundo a designer de interiores Luciana Galvão, que atua há 15 anos na área e desenvolve projetos fundamentados na neurociência aplicada aos ambientes, a casa exerce um papel muito mais importante do que apenas servir de abrigo.
“A maioria das pessoas acredita que a casa apenas abriga a vida. Eu vejo diferente: a casa participa da vida. Ela pode favorecer relaxamento ou tensão, aproximação ou isolamento, concentração ou distração”, explica.
A neurociência aplicada aos ambientes estuda justamente como o cérebro reage aos estímulos presentes nos espaços. Iluminação, cores, organização, materiais, sons e até a disposição dos móveis podem influenciar emoções, comportamento e até o funcionamento cognitivo.
Para Luciana, a mudança no perfil dos clientes é um reflexo desse novo olhar. Se antes as pessoas chegavam ao escritório pedindo um estilo específico, hoje as demandas são bem diferentes.
“Os clientes dizem que querem dormir melhor, reduzir a ansiedade, aproveitar mais a família ou criar um ambiente que favoreça o convívio. A estética continua importante, mas ela deixa de ser o único objetivo”, ressalta.
Na prática, isso significa que cada projeto passa a ser pensado de forma personalizada. Em vez de perguntar apenas qual cor usar na sala ou no quarto, a principal questão passa a ser: como os moradores desejam se sentir naquele espaço?
Organização
Entre os elementos mais importantes estão a iluminação, a escolha das cores, os materiais utilizados, a acústica, a ergonomia e até a organização da casa.
A iluminação, por exemplo, influencia diretamente o sono, a disposição e o nível de atenção. Um ambiente destinado ao descanso precisa reduzir estímulos, enquanto um espaço voltado ao trabalho deve favorecer o foco.
As cores também exercem influência sobre as emoções, mas Luciana faz um alerta para um equívoco bastante comum.
“Não existe uma cor que acalma todo mundo ou outra que torna todas as pessoas mais produtivas. É preciso considerar a personalidade, a cultura, as memórias e até a iluminação do ambiente.”
Outro aspecto frequentemente negligenciado é a organização. Segundo ela, ambientes confusos exigem mais esforço mental do cérebro para processar as informações.
“A boa organização não é apenas uma questão estética. Ela reduz a sobrecarga mental e facilita o dia a dia.”
Natureza
A presença de plantas, madeira, fibras naturais e boa iluminação natural também está entre os recursos que favorecem o bem-estar.
Isso acontece porque o cérebro humano continua respondendo positivamente aos elementos da natureza, capazes de transmitir sensação de conforto, pertencimento e acolhimento.
Mesmo em imóveis compactos, cada vez mais comuns nas grandes cidades, é possível aplicar esses princípios. O segredo, segundo a designer, está no planejamento inteligente dos espaços, priorizando circulação, armazenamento e ambientes multifuncionais.
Nem sempre é preciso fazer grandes reformas para sentir os benefícios. Melhorar a organização, investir em materiais naturais, utilizar tecidos aconchegantes e aproximar a casa da natureza já podem proporcionar ganhos perceptíveis.
Ainda assim, Luciana ressalta que mudanças pontuais não substituem um projeto pensado de forma integrada, especialmente quando há questões estruturais no ambiente.
Tendência
A pandemia acelerou a busca por casas mais acolhedoras e funcionais. As pessoas passaram a perceber que os ambientes interferem diretamente no humor, nos relacionamentos e até na produtividade.
Essa transformação também impulsionou tendências como o design biofílico, o warm minimalism, a iluminação humanizada e o uso de materiais naturais. No entanto, para Luciana, nenhuma tendência deve ser seguida apenas por estar na moda.
“Pessoas não são tendências. Cada projeto precisa considerar a história de vida, a rotina, a personalidade e as necessidades emocionais de quem vai viver naquele espaço”, resume.
Essa proposta poderá ser vista de perto durante a CASACOR Sergipe 2026, quando Luciana Galvão e Remerson Rocha apresentarão o ambiente “Átrio Íntimo”, concebido para mostrar como o design pode fortalecer vínculos, reduzir a sobrecarga mental e transformar a experiência de morar.










